Do cotidiano e das leituras
01/02/2016 15:12 em Book Review

 

 

O caxiense João Lucas Albuquerque volta-se para o cotidiano à sua volta para criar seus poemas. Mas, não deixa de admitir, inspira-se em leituras de autores do calibre de Jack Kerouac (Vagabundos iluminados), Jack London (Caninos brancos), Charles Bukowski (Hollywood), Jack Krakauer (Into the wild), Hunter Thompson (Medo e delírio em Las Vegas) e Caio Fernando Abreu (O ovo apunhalado).

Aos 25 anos e formado em Serviço Social (FSG), João Lucas ainda não publicou. E como outros militantes da literatura, também encontrou na música – é baterista, percussionista e backing vocal da banda ÓoauêaÍ, com Diego Bonaldi (baixo, vocal, backings, teclado, cazu e monotron); Isabela Salles (baixo, guitarra, vocal, backings, teclado, monotron e percussão); e Allan Lazarotto (guitarra, vocal e backings) – um complemento para a sua arte.

Na banda, ouve-se influências de diversos estilos musicais, como jazz, blues, rock progressivo e psicodélico e rock nacional. Composições próprias, a serem lançadas em CD, são interpretadas em outros idiomas (português também de Portugal, inglês, espanhol e francês), com forte influência d'Os Mutantes.

Meu trabalho resume-se basicamente em poesias sobre os relacionamentos, tanto carnais quanto sentimentais, e o fator que altera o sentimento perante o acaso dos encontros e desencontros, os sacrifícios e as perdas, mas também os ganhos”, diz, ao procurar definir o que escreve.

Mesmo admirador dos autores citados acima, justifica-se que “não há autor ou obra que inspire a escrever tais poesias, mas sim o cotidiano mesclado a diversos textos lidos (...), como forma de buscar uma base para o que será escrito”.

No entanto, reconhece que de uns tempos pra cá, a fonte de inspiração “secou” e, por isso, busca “em novos autores, textos, poemas, poesias, contos ou o que for (inspiração) para que possa voltar a escrever”. Nessa busca, acredita, abre um leque de opções “nunca antes cogitado, para assim poder continuar escrevendo”.

 

 

 

Leia algumas poesias reunidas sob o título Nota final.

 

ironia (mai: 2014)

 

sou luz. sou terra.

sou céu e água.

sou tudo e sou nada.

sou feito de palha,

com um coração em chamas.

 

sou de rimas vazias

e palavras duras.

um mar de agonias.

e por dentro,

calmaria.

 

minh'alma

se dissolve e,

nesse compasso,

até chove.

e assim derreto.

 

me desfaço em verso,

chiados de prazer.

ora, por agora é

meu dever

me construir de novo.

um novo eu? não sei como.

 

sou cego e enxergo,

sou de calor e de frio.

de mãos calejadas e coração puro.

sou a estrada a percorrer

o amor a encontrar

o nascer do sol

a raiar.

 

a brisa tão leve que me

carregue.

sou feito de visões e feitios.

sou de carne e osso,

pau e pedra.

 

tropeçando, correndo

trôpego,

no labirinto que construí

com fragmentos do que

um dia fui.

 

% (mai: 2015)

 

nem vi q já era demais

e em

partes, fui de menos.

 

ano final (nov: 2013)

 

faço de cada ponto

de encontro

canto de encanto

para cada novo dia

fazer de cada encontro

ponto de história

e em cada canto um ponto final

de encantos finais.

deixo pro começo

cada partícula de recanto

pra cantar teu lamento

de encontrar o ponto final.

porque depois da tempestade

a bonança se alinha.

e mostra o começo do desencanto.

 

quinta-feira (abril: 2012)

 

a noite é sempre

mais do que se

pode aguentar.

choram minhas

lágrimas para que

eu mesmo não

precise chorar

é pote de outro

no fim d'um arco

íris

que nunca termina

é verdade e exaltação

de almas que tangem

um mundo

paralelo

eu não explico

tu menos ainda.

 

Confira um clip da banda, com a música Hoje em dia

https://www.youtube.com/watch?v=wX2hHAa3-pQ

 

 

 

 

 

 

Dinarte Albuquerque Filho

Jornalista

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