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O limite da dor em quatro minutos
07/08/2021 06:45 em Cinema

 Em 2006, o roteirista e diretor alemão, Chris Kraus, lançou a película intitulada Quatro Minutos. O filme conta a história de Traude, personagem interpretada por Mônica Bleibtreu, uma rude professora de piano que leciona para prisioneiras de uma penitenciária na Alemanha pós-guerra. Em certo momento da trama, ela encontra uma aluna excepcional. 

A utopia do estudante perfeito, porém, se transforma em pesadelo, já que a dona do talento em questão é Jenny, vivida pela atriz Hannah Herzsprung, jovem prisioneira de extrema periculosidade, violenta, rebelde e totalmente indisciplinada. A velha mestra estabelece regras e resolve desenvolver o dom da aluna e a inscreve num concurso de piano. A relação entre ambas, contudo, assumirá contornos insustentáveis ao longo da trama. Em mundos opostos, elas sofrem do mesmo mal: a prisão. 

A professora proíbe a aluna presidiária de tocar música negra. “Não serve pra nada”, esbraveja. Na obra prima cinematográfica do Chris Kraus não aparece uma negra sequer. Nas prisões da Alemanha mulheres da pele preta são raras, embora as tenham.

No Brasil, dados do Departamento Penitenciário Nacional mostram que, em junho deste ano, elas eram 67% do total de presas no país. Das 29.534 detentas, 19.917 eram negras. Já o Infopen, relatórios de informações penitenciárias, de 2018, calculou a taxa de aprisionamento e concluiu que para cada grupo de 100 mil habitantes existem 40 mulheres brancas privadas da liberdade e existem 62 negras na mesma situação. A disparidade mostra que, na terra do Pau Brasil, as negras também é a maioria atrás das grades. Elas representam dois terços das mulheres encarceradas.

O escritor franco-argelino, Albert Camus, abre seu livro Mito do Sísifo com uma frase emblemática: “A única coisa realmente séria na filosofia é o suicídio”. As imagens iniciais do Quatro Minutos mostram o corpo da companheira de cela da heroína da trama pendurada numa corda, simbolizando de forma concreta as armadilhas da solidão.

No Brasil, até onde se sabe, não existe um estudo especifico sobre a incidência da negritude feminina de por fim a vida pelas próprias mãos. Não temos notícias de tal divulgação. O que sabemos, contudo, é que as mulheres negras, de modo geral, não se matam, são assassinadas. De acordo com os boletins de ocorrências, a maioria com violência e por torpes motivos.

O Atlas da Violência de 2020 revela que 64% das mulheres negras tem mais risco de serem assassinadas do que as brancas. Nos feminicídios, duas em três vítimas são negras. O levantamento mostra, ainda, que as mortes violentas de mulheres afrodescendente subiram 12,4%, e caíram quase 12% entre as brancas. No Brasil, ao contrário da alegoria filosófica de Camus, mulher negra é um alvo móvel que só desce da montanha social. Em geral, morta.

O roteiro de Chris Kraus mescla nazismo, comunismo, machismo, lesbianismo, homossexualismo, inveja, vigarices e a luta pela liberdade sempre banhada em sangue. As dramáticas cenas finais do filme descortinam a heroína Jenny executando uma peça do compositor Robert Schumann com improvisos da musicalidade enfurecida da negritude. Em quatro minutos, ela vence o concurso e, na referência aos aplausos, é algemada sob a luz dos holofotes.

A luta das mulheres negras do Brasil não pode ser contabilizada em quatro minutos de dor, revolta e ficção. É preciso considerar os séculos de resistência e seguir combatendo todos os dias contra os machistas de plantão. Resta saber quando e como se dará o bis da revolta da chibata no campo feminino. Mirando o passado e tendo em mente o presente, tudo indica que a transformação social, a mudança radical nos costumes, a revolução brasileira será detonada pelas mulheres. Pretas, brancas, amarelas, jambos... Guerreiras, sempre lutando pelas boas causas sociais e sem jamais perder a ternura.

 *Quatro minutos pode ser visto no YouTube

https://www.youtube.com/watch?v=MHI8Qaj7rVY

 

 

 

 

 

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